Entrevista do Presidente da Comissão Politica, André Almeida

Na hora da saída, André Almeida traça o balanço da presidência da Comissão Política do PSD de Arouca e analisa o estado do município.

(Discurso Direto): Estando a concluir o mandato como presidente da Comissão Política, que balanço faz? O que motivou a candidatura e que aspetos lhe merecem referência da ação desta Comissão?
(André Almeida): As últimas eleições autárquicas resultaram na pior derrota do partido em Arouca. Na Assembleia Municipal passou a ser a terceira força. Na Câmara Municipal obteve menos de 20% dos votos. Não conseguiu, ao contrário do que vinha sendo tradição, apresentar candidaturas a todas as Juntas de Freguesia. O momento era muito difícil, mas é, precisamente, nessas alturas que devemos «dar a cara». Na sequência dessa derrota eleitoral, o partido precisava de se reconstruir, de repensar a forma de comunicar, de voltar a unir as várias sensibilidades em torno dum projeto comum para o futuro de Arouca. Foi um mandato onde se tentou afirmar um rumo
claro e aberto. Onde tentamos dar ao PSD ideias claras e afirmar uma linha política esclarecida e determinada. Procuramos abrir as portas à comunidade, ir para junto das populações, criar pontes com os vários setores da sociedade, o PSD quis-se assumir como uma força viva, que refletiu, observou, ouviu, e agiu com convicção, mas sempre numa forma correta e fundamentada.

(DD): Porque não se recandidata a um novo mandato? Não é o próximo mandato o mais aliciante, tendo a responsabilidade e o poder de escolher ou ser candidato?
(AA): A visão da política com base nos ciclos eleitorais é errada. Não nos devemos reger pelos ciclos eleitorais e não me move alcançar o poder pelo simples facto de o alcançar. Neste mandato, era importante que o PSD se organizasse internamente, se tranquilizasse e que conseguisse comunicar melhor. Esse foi o meu propósito e a minha responsabilidade. Agora abre-se um novo ciclo, um ciclo que implica opções, escolhas, rostos que permitam ao PSD apresentar-se ao próximo combate eleitoral com força e credibilidade. Um ciclo que implica uma enorme disponibilidade e preparação. Eu, por razões profissionais e familiares, não tenho essa disponibilidade. Entendo que não devemos estar «à espera de nos mantermos». E não tenho personalidade nem feitio para estar por estar e fazer um mau trabalho. O PSD não se pode dar a esse luxo. O PSD tem que se apresentar aos arouquenses com um propósito coletivo, fruto de uma reflexão acertada e aberta a todos. As pessoas precisam de soluções para os seus problemas e de pessoas em quem possam confiar para as encontrar. E o PSD tem que trabalhar, com eficiência, nesse sentido. E isso implica muita disponibilidade e dedicação que nesta fase da minha vida não tenho.

(DD): Mas, parafraseando um político nacional, “vai andar por aí”?
(AA): Eu vou estar sempre disponível para trabalhar por um futuro melhor, seja em cargos de relevância ou não. De qualquer forma, quando as pessoas estão na política não podem, nem devem estar desligadas da sociedade. A lógica deve ser a de estarmos disponíveis para nos batermos por causas, por convicções, pelas pessoas que representamos. É nesse sentido que eu encaro a política, e não numa lógica de lugares. Nesse sentido, estou e estarei sempre disponível para «dar a cara» por projetos ambiciosos e credíveis, para «ir à luta» pelos objetivos dos arouquenses e dos portugueses. Não numa lógica de «lugares» ou de protagonismo, mas antes de disponibilidade e de trabalho. E há vida para além da política.

(DD): Como é ser dirigente do PSD numa terra sociologicamente social-democrata, mas que tem uma Câmara socialista há sucessivos mandatos? Há razões objetivas para que tal aconteça?
(AA): É uma realidade, mas essa reflexão está feita e julgo que apreendida por todos os militantes e dirigentes do partido. O partido não pode cometer e insitir nos erros do passado tendo antes, o dever de apresentar um projeto alternativo a esta governação. Para isso, é preciso desenvolver um projeto ambicioso e sério que envolva a sociedade civil e que seja capaz de atraír e envolver as pessoas. Um projeto de valores e de princípios, porque o alcance do poder é a consequência da afirmação e da vitória das ideias. Não pode ser ao contrário. Não pode ser ter o poder para depois impormos as ideias. O poder tem de ser uma consequência do esforço, da solidez, da coerência e do trabalho.

(DD): Que leitura tem das sucessivas cisões no PSD de Arouca? Continua a haver vários PSD?
(AA): Não me preocupa a diferença e a diversidade. O PSD é um partido que sempre privilegiou as várias tendências internas, a diversidade de pontos de vista, o debate de ideias e o pluralismo. A diversidade é a maior riqueza do partido. Mas as pessoas não querem saber da diversidade do PSD ou da estratégia interna. Querem é conhecer e confiar nas soluções. E é, nesta altura e nesta conjuntura de crise, imprescindível que o PSD esteja forte, coeso, firme nas suas convicções e disponível para a busca de soluções definitivas para os problemas que todos os dias enfrentamos.

(DD): Como caracteriza o atual estado de desenvolvimento do concelho?
(AA): Arouca tem de resolver definitivamente a questão das acessibilidades rodoviárias. Não podemos aspirar ao desenvolvimento do turismo sem um acesso condigno. Esse é um dos erros estratégicos desta Câmara. Não podemos «vender» um destino que não está acessível e onde é difícil chegar. Desenganemonos, Arouca enquanto destino turístico ainda é uma miragem. Temos também uma estrutura económica com algumas dificuldades, sobretudo porque é difícil fazer circular o produto da nossa indústria pelas vias que temos e isso torna-o pouco competitivo. E temos os jovens cada vez mais a procurarem soluções fora do município. O presidente da Câmara Municipal agita sempre os baixos números do desemprego, mas esses números são falaciosos. Muita gente sai de Arouca diariamente para trabalhar em Vale de Cambra, em São João da Madeira, em Oliveira de Azeméis, em Santa Maria da Feira, até no Porto. Continuam em Arouca por uma questão de identidade, talvez. Mas a mão de obra não está em Arouca. Resumindo, precisamos de melhores acessos, precisamos de fixar os nossos jovens, dando-lhes oportunidades válidas, precisamos de apoiar inequivocamente a nossa estrutura empresarial, de apoiar e desenvolver a nossa agricultura e a nossa maior riqueza que ainda é a floresta. Mas, claramente, são as vias de comunicação a nossa maior dificuldade.

(DD): Como vê o trabalho do Executivo municipal?
(AA): Arouca precisa de pensar-se, de encontrar um rumo estratégico, integrado, que pense os recursos equilibradamente, não apenas gerir o dia a dia. Há muito «cinzentismo», muita falta de ideias e pouca capacidade de decisão e liderança e que é preciso contrariar. Uma Câmara ou Executivo municipal não pode ser liderada por uma pessoa que apenas faz relações públicas, nem a Câmara pode ser apenas uma espécie de posto de turismo ou uma simples seccção administrativa. Os responsáveis pela Câmara Municipal têm de gerir Arouca de forma mais ambiciosa. Têm de apoiar as pequenas e médias empresas que necessitam de condições para serem competitivas, gerarem postos de trabalho e terem capacidade inovadora e criativa. Apostar na captação de investimento e na dinamização das micro economias que o País tem, por exemplo, novas
tecnologias, energias limpas e indústrias criativas e culturais, que têm um enorme potencial de crescimento. Têm de criar expectativas
aos mais jovens e de concretizá-las. Têm de fazer uma aposta séria e profissional na cultura e no turismo e não apenas participar ou receber reuniões ou congressos para elites. A cultura e o património têm que ser a afirmação da nossa identidade, como formação harmoniosa da nossa personalidade e nunca como um fardo no orçamento. É necessária uma dinâmica mais virada para o futuro, estruturada e planeada, e não baseada em ocorrências esporádicas. Mas julgo que Arouca se está a dar conta que não pode continuar a hipotecar o seu futuro em meros acontecimentos esporádicos.

(DD): Encontra alguma explicação para o que se passa em algumas obras polémicas, como as da Praça Brandão de Vasconcelos ou nas margens do rio Paiva?
(AA): A Câmara precisa de parar para pensar e redefinir prioridades. Isto não significa imobilismo nem negativismo, mas sentido de responsabilidade. Não podemos gastar o que não temos, ou o que muito em breve nos poderá fazer falta. Lamento ainda, relativamente à requalificação da Praça, que não tenham sido respeitadas, nem consideradas, as sugestões e críticas sobre estas obras quem em boa hora o PSD apresentou. É necessário aferir se este investimento se se justifica e se alinha com o interesse do desenvolvimento do concelho ou se são exclusivamente despesas que não têm qualquer efeito positivo e visam unicamente gastar fundos comunitários, a que se junta obviamente a compartição dos contribuintes. De que vale acionar fundos do QREN se não podermos acionar a nossa contrapartida? Nesta altura o executivo deveria, como sugeri decidir-se pela suspensão das obras e imediata reavaliação do projeto. Relativamente ao rio Paiva, julgo que o investimento deve ser feito noutras valências e sobre outros propósitos. É relevante encontrar uma forma que resolva de forma qualificada e sustentada os verdadeiros problemas do rio e não fazer meros investimentos de fachada que mais uma vez não alinham com o interesse e o desenvolvimento sustentado do município. O Polis dos rios era, como sugeri na altura, um modelo que encaixava perfeitamente e que poderá constituir-se como uma excelente intervenção de proteção e valorização do rio. Mas é preciso perceber que a prioridade deve ser a limpeza do rio e das suas margens, uma maior fiscalização e controle da qualidade da água e uma séria aposta na criação de condições para a prática dos desportos de rio.

(DD): Que opinião tem sobre o trabalho político da oposição e concretamente a oposição feita pelo PSD na Câmara e na Assembleia Municipal?
(AA): É lógico que estar na oposição é sempre bastante mais complicado. Contudo, creio que o PSD tem desenvolvido sempre uma oposição responsável. Não tem sido um partido de «bota abaixo», como se costuma dizer na gíria. O PSD participou ativamente na discussão do presente e do futuro do município, com vigilância, fiscalização, mas também com ideias e propostas através dos nossos autarcas que têm estado atentos aos problemas e necessidades dos arouquenses e têm trabalhado diariamente com este espírito, numa disponibilidade e empenho notáveis.

(DD): Que expectativa tem para o PSD a nível local?
(AA): O PSD tem que se afirmar contrariando uma governação baseada em complexos, em preconceitos e alicerçada em falta de humildade e de trabalho e não alinhar na mesma estratégia da atual Câmara socialista, que sobrevive com base em ações esporádicas e pouco refletidas, sem nenhuma integração nem qualquer contexto estratégico. O PSD não deve alinhar em «show-offs», exibicionismos ou manobras habituais de «marketing» político, porque as pessoas estão fartas disso e a política não é isso. A política é estar ao serviço das pessoas e na defesa dos seus mais legítimos interesses. Esse empenho e essa postura, eventualmente até em consensos necessários com os nossos adversários, é o que tem que continuar a presidir à ação do PSD.

(DD): O que em sua opinião deve ser feito para o PSD voltar a ganhar a Câmara?
(AA): O PSD vencerá as eleições quando tiver o melhor projeto para o desenvolvimento de Arouca e isso só se alcança se se trabalhar para tal, se se disponibilizar para saber o que é que as pessoas esperam dos governantes e o que pensam ser fundamental para esse desenvolvimento. O PSD tem a responsabilidade de apresentar uma alternativa credível, uma alternativa com esperança e com futuro. Tem que procurar as pessoas e ideias capazes de mobilizar a nossa terra. Estamos num momento em que é preciso virar a página quase 20 anos de governação socialista e promover no concelho uma gestão mais ambiciosa, que consiga gerar mais riqueza, mais emprego e mais qualidade de vida.